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COLUNISTA Luciane Marangon Della Flora Visualizações: 56

Um certo Otávio

Um certo Otávio

Naquele mundo amarelo, sem alegria e sem sorrisos, Otávio vivia. Encontrar sentido naquilo que fazia era, certamente, uma das tarefas praticamente impossíveis em seu cotidiano, uma vez que dificilmente conseguia realizá-la. Tinha treze anos e os sonhos de sua esquecida infância ainda não tinham sido sequer sonhados.

O sinal tocava e estar livre de qualquer compromisso aparente era o ápice da liberdade de seu cárcere. Aprisionado no círculo da vida, talvez assim pudéssemos descrever o tal Otávio. Sem voz, sem vez, sem sonho, com passado para ser esquecido, fazia de seu presente um caminho totalmente vazio para seu futuro. Otávio, que podia ser o Paulo, a Maria, e que tantas vezes parecia não ter nome, era sempre sem sonhos. Se o outro dizia, Otávio prontamente fazia, mas, em compensação se o professor orientava, ele simplesmente ignorava.

Otávio, o oitavo, era órfão, coitado! Família inexistente, valores distorcidos, podia ser aquilo que quisesse, entretanto, ninguém, em sua casa, foi capaz de mostrar-lhe possibilidades para o que um dia, talvez, pudesse ser. Certo tempo, nada longínquo do tempo dos treze, saiu ele daquele lugar que considerava uma prisão de quadro e giz e foi viver o mundo, o que conhecia, não o outro, o de melhores possibilidades. Os dons que Otávio parecia ter, o de sorrir e desenhar, foram aos dezoito anos trocados pela janela sem cor, cheia de ferro cerrado.

Otávio, que também foi tanta gente, esqueceu-se de caminhar aquele que considerava “o mané” das paredes que escondiam quadro e giz. Hoje, ouve o vento soprar forte, enquanto a lágrima escorre em seu rosto, por nunca saber o que era a vida, nem aquilo que de fato ele é!

Se essa história é apenas um conto ou não, jamais caberá que se averigue, afinal, independente de Otávio, João, José, Anita, Maria, o certo é que tem muita criança esperando um rumo para ser. Os primeiros passos, os firmes, vêm de casa. Outros, experimentados, na escola, amparados no alicerce que nos fundamenta. Sem amparo, sem fundamentos e valores, o certo é que muitos de tantos nomes vão vivendo por aí, sem sorrisos, sem perspectivas, com muito fardo e pouca esperança de um dia ser melhor do que se é.

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