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COLUNISTA Luciane Marangon Della Flora Visualizações: 99

O estrangeiro

O estrangeiro

Seu Antônio, um senhor de aproximadamente 70 anos e com marcas de cansaço em sua face, vivia em uma cidadezinha tranquila, de poucos acontecimentos importantes. Era uma daquelas cidades do interior onde se consegue respirar um ar puro. Uma daquelas cidades cujo barulho das buzinas, bem como a ferocidade dos automóveis não consegue, ainda, espantar os pássaros cantores. Esses gostam, ali, de acordar os moradores. Talvez você conheça algum lugar assim e, se não conhece, com certeza gostaria de conhecer.

O galo cantava nas madrugadas de todos os dias. O cantar do galo era o sinal de que estava na hora de seu Antônio acordar. Com toda sua calma, abria seus olhos castanhos e cansados pelos anos que passaram e levanta-se para fazer seu café. Aliás, ele fazia seu café, seu almoço e seu jantar, pois, durante sua vida, nem casamento, nem filhos foram prioridades. Por alguma razão, a qual não sabemos, ele não se permitiu ser semente.

Aquele parecia um dia qualquer e, como de costume, buscou o álbum de fotografias de sua família e ficou a fitar uma a uma, após o café. Olhou com tristeza a foto de seus pais e seus avós que já haviam partido desse mundo. Aliás, a partida fez parte daquela família desde sempre.

Os seus avós haviam chegado ao Brasil no início do século XX. Creio que você também conheça famílias que tiveram história semelhante. Creio que conheça gente que chegou assim. Gente que precisou cortar águas, vindos de longe, fazendo história, fugindo da fome, fugindo da morte. Assim foram com os estrangeiros que imigraram para as terras que hoje dizemos serem também nossas.

Seu Antônio entendia bem o sentimento de seus antepassados afinal, além de viver em uma região fronteiriça, também vivia deslocado de si mesmo. Aliás, escrever a história de sua família era como uma missão de resgate do seu próprio eu.

Essa era sua missão de anos, pois já não tinha mais importância para o mundo do trabalho. Já havia contribuído o suficiente e, automaticamente, tornava-se mais um na inatividade. O resgate de sua história, da vinda de sua família de estrangeiros era tão importante quanto à água é para a existência de um rio. Queria concluir aquele livro, para que ao menos pudesse perpetuar na biblioteca da cidade um pouco de si. Uma semente artificial é certo, mas era o que ele poderia deixar.

Foi então que, novamente, um sentimento de vazio invadiu seu peito. E de tanto vazio, as lágrimas rolaram com calma, com a costumeira calma em sua face, afinal, não precisava ter pressa, ninguém iria perceber. Ninguém além do próprio tempo talvez.

Naquele instante, do nada, como que numa revolta da natureza, o céu se fechou e em um minuto o vento estrangeiro chegou à cidade. Pássaros esconderam-se. Seu Antônio observava tudo, dentro de sua casinha. Abraçou com força seu álbum de fotografia, afinal, não tinha quem abraçar. O vento e a chuva formavam, naquela cena, uma dupla destruidora e feroz, sem dó e nem piedade.

Tudo, exatamente tudo foi destruído. As casas de seus vizinhos já não existiam mais. A sua, estava a ruir. De repente, em um piscar de olhos, a luz apagou e seu Antônio teve que deixar tudo, exatamente tudo o que tinha, inclusive seu álbum de fotografias, para tentar buscar a luz e sair de sua casa. Tinha que estrangeirar após a tempestade, no mundo lá fora para ver como iria recomeçar sua vida.

Às vezes, durante nossos dias, nos perguntamos o porquê de tantas coisas, os motivos das lágrimas, das tristezas, das incompatibilidades que temos, por muitas e muitas vezes com o outro. Vivemos em um mundo de estrangeiros, no qual o outro que vem até nós jamais será como queremos, afinal, também somos estrangeiros a ele.

O certo é que, independente de nossas vontades, fazemos parte de uma história, constituindo, assim a nossa. Estrangeiramos, como seu Antônio, nesse mundo que não é nosso. Temos apenas a certeza que sempre teremos que conviver com alguém ou algo estrangeiro que chegará de um modo ou de outro, sem nosso consentimento.

 

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